Fotografia: Cristiano Prim

Quarto 1

O quarto em palavras, por Vera Torres

No quarto… será que eu posso entrar??
Um corpo descansa, uma mulher a dormir. Perfeita!
Os cabelos percorrendo o cobertor… seria uma pintura?

Na pequena cômoda, aquela gaveta abrindo… abrindo
incessantemente mostrando… mostrando
fragmentos de fogo, restos de ar… resquícios de intimidade?
Poderia eu… fechá-la?

Ainda a dormir, ainda perfeita e ainda pintura…
a personagem muda o espaço… e toma a vertical de seu sono.
No descanso tranqüilo da parede/cama (talvez fria?) faz sorrir alguma “lei da gravidade” e gargalhar meu pobre imaginário.
Sim… sim tudo parece possível!

Pisco os olhos e… vejo um quarto desarrumado:
a bagunça, a brincadeira, a alegria infantil
tomam forma no corpo da “descabelada” performer que
encarna agora uma outra “intimidade”.

Mais um instante e a cena já é outra:
Um entra sai entra… da janela para a cama para a rua para o quarto…
E já não percebo mais os limites:
quarto, casa, parede, porta, pátio, mulher… será que existem?
E a moradora continua a borrar estas paredes…
agora enrolada no azul do cobertor, vagueia pela sala, cozinha, banheiro
levando o quarto em si num passeio… possível?

Room 1

The room in words, by Vera Torres

In the bedroom… Can I come in??
A body rests, a woman sleeps. She’s perfect!
Hair goes through the blanket… could it be a painting?
In the small chest of drawers, one drawer opening…opening
Incessantly showing… showing
Fragments of fire, remnants of air… remnants of intimacy?
Could I… close it?
Still asleep, still perfect and still painting…
The character changes the space …and from sleeping she goes upright.
In the calm rest of the wall/bed (maybe cold?) forces a smile in some “law of gravity” and a laugh in my poor imagination.
Yes… but everything seems possible!
I blink my eyes and see an untidy bedroom:
Mess, amusement, childish delight
Take form in the “disheveled” performer’s body who
now embodies another “intimacy”.
Another moment and the scene is already different:
Goes in,goes out… from the window to the bed to the street to the bedroom…
And I can’t distinguish the limits anymore:
Bedroom, house, wall, door, courtyard, woman… do they exist?
And the resident continues to blur these walls…
Now wrapped up in a blue blanket, wanders throughout the living room, the kitchen, the bathroom
Taking the bedroom for a walk along with her… is it possible?